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quarta-feira, 1 de julho de 2020

REFLEXÕES NA CRISE

A Covid-19 deixará um rastro de destruição sobre a humanidade. Negócios serão aniquilados, empreendimentos deverão ser remodelados, o saber deixará de ganhar valiosos avanços, milhões de crianças perderão tempos preciosos na aprendizagem, a pobreza cobrirá o planeta com sua devastadora capacidade de aumentar as desigualdades sociais, a angústia e a depressão vestirão milhões, senão bilhões, de pessoas com o manto da tristeza. O planeta atrasará em muito seu ritmo de avanços.
Há quem faça projeções mais otimistas, como essas que sinalizam descobertas revolucionárias na medicina, com a chegada das vacinas. É razoável apostar, sim, em passos adiante. Mas não há como deixar de reconhecer o atraso na vida educacional de uma geração, obrigada a permanecer em casa, mesmo assistindo as aulas por meios virtuais.
Aliás, esse ensinamento à distância deixa muito a desejar. Poucos prestam atenção ao pensamento do mestre, a interação é muito escassa, o diálogo se perde na cadência monótona do bombardeio mental. Milhões de micros, pequenos e médios negócios fecharão as portas. No plano espiritual, os danos maltratam mentes e corações na forma de impactos emocionais e racionais. Quantas pessoas estão desabando no despenhadeiro da depressão, da angústia e da tristeza, quando em suas redomas repassam suas vidas, o tempo perdido em apostas sobre o futuro, em uma cadeia de ilusões que se desfazem nas correntes de vento que balançam a vida. Volto os olhos aos imensos contingentes que pensam muito sobre o circuito de sua existência.
Que sofrem em ver tantas injustiças, que se tomam de indignação contra a corrupção na política, que não se conformam com a facilidade como as massas são manipuladas, com os desvarios de governos, pessoas que têm grande dom de se expressar e pequena motivação para agir. São pensamentos e reflexões na crise. E aqui por nossas plagas, o que poderá acontecer? Se os tempos fossem normais, Jair Bolsonaro não completaria o mandato. Mas em tempo de pandemia, qualquer ato político impactante semeará caos no país. A alternativa que resta é a pressão por mudanças: no comportamento do presidente, na força aos governos e municípios para que possam ser bem-sucedidos em sua guerra contra a Covid-19.
Quanto às eleições de novembro - na crença de que serão adiadas -, que os candidatos reflitam sobre seu discurso, sua maneira de se apresentar ao eleitorado e procurem realizar um ato de contrição. Sejam simples, modestos, honestos e sinceros. Amanhã será outro dia.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP (Universidade de São Paulo), consultor político e de comunicação

https://abcreporter.com.br/2020/06/29/reflexoes-na-crise-gaudencio-torquato/

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