Quando
fiz faculdade no final dos anos 80 havia um professor de sociologia (José
Carlos Moreira) que nos explicou sobre a invisibilidade da multidão, ou seja,
na multidão ocorre a perda da individualidade, por isso o cidadão abandona
todas as regras sociais e alguém aparentemente pacífico pode quebrar, soltar
bombas, agredir, etc.. Acredito que se essas aulas fossem hoje, tal professor nos
explicaria como as pessoas ficam invisíveis nas redes sociais. Basta um usuário
fazer um “post” e os demais se sentem invisíveis para os comentários, uns são racionais,
mas, grande maioria toma uma postura diferente daquela que teria se estivesse
frente a frente com o interlocutor. É impressionante como nessas mídias as
pessoas chamam os outros de “idiotas”, “vagabundos”, “oportunistas”, etc..
Políticos são o alvo principal, mas, de um modo geral ninguém é poupado, assim,
pessoas comuns, profissionais, instituições, sempre estão na linha de tiro.
Outro fenômeno impressionante causado pelo Facebook é a transformação, ou seja, em poucos segundos todos adquirem
conhecimento e se tornam especialistas em saúde, administração, educação,
justiça, tecnologia, etc.. Evidente que há punição para isso (no caso de
agressões), mas; não é para esse viés que vou conduzir essas pequenas
considerações. Dias atrás meus colegas de classe me enviaram cópia de um “post”
de Facebook onde um cidadão escreveu em letras maiúsculas (que segundo os
especialistas em etiqueta significa que a pessoa está gritando), um protesto em
razão da reserva de vagas para Advogados defronte ao Fórum. Resolvi então
conferir rapidamente a postagem e depois li alguns comentários, e; ao contrário
do que possa parecer, achei o protesto interessante sob os aspectos que citei
anteriormente, afinal, nós advogados lutamos justamente para que as pessoas
tenham liberdade de opinião, aceitamos perfeitamente o contraditório, aliás, se
tem uma classe que trabalha muito bem com a divergência de ideias, esta é a
classe jurídica. Percebi também, pelas fotos daqueles que fizeram seus
comentários que há 10 anos deveriam estar na faixa dos 17 ou 18 anos (não todos
é claro), ou seja, talvez não tenham sentido ou percebido que no ano de 2006 o
PCC fez diversos ataques a órgãos públicos, à própria polícia e houve até a
morte de um juiz na região, desde então os Fóruns passaram a se preocupar com a
segurança, naquela época o Fórum local sequer possuía grades ao seu redor e a
entrada e saída não era controlada. Cabe ao Juiz-Diretor velar pela segurança
do local, pois; se alguma coisa mais grave acontecer é sobre ele que recairão
as cobranças. Dentro desse raciocínio gostaria de dizer que o Juízo local
adotou a medida menos invasiva possível, pois, sendo o local uma área de
segurança, poder-se-ia ter adotado o sistema escolhido na cidade de Tupã, onde
toda a guia é pintada de amarelo e ninguém pode estacionar no quadrilátero, com
exceção dos advogados, aliás; falando desta classe que tanto tenho orgulho em
representar, gostaria de lembrar que cada vez que um advogado estaciona um
carro no fórum, ele está lá para defender o próprio cidadão. Felizmente, para
nosso orgulho, não há uma linha na história desse país em que a OAB não tenha
participado, como foi nas Diretas Já, no pedido de impeachment de dois
presidentes, no pedido de destituição do Presidente da Câmara, o todo poderoso
Eduardo Cunha, ou seja, é graças a essa busca diária por igualdade e respeito
ao Estado de Direito que a OAB e o Advogado propicia (m) que qualquer um faça
seu protesto, inclusive com “posts” nas redes sociais. O saudoso Mário Covas
dizia diante dos movimentos grevistas que ele foi exilado para que justamente
pudessem fazer greve. Nossa memória é tão curta que esquecemos que recentemente
o governo pretendeu limitar a internet, tal qual nos celulares e criar pacotes
de consumo. Se você hoje usa a internet sem limitação talvez não saiba, mas a
OAB fez grande pressão e obteve a troca do Presidente da Anatel que abandonou a
famigerada ideia. A OAB foi a primeira entidade a defender a diversidade e o
casamento homoafetivo. Quase sempre, tudo começa com um Advogado muitas vezes
isolado e distante que elabora uma ação e provoca o Poder Judiciário a se
manifestar sobre um determinado assunto que acaba se tornando o embrião de
futuras leis. É a primeira entidade de classe a aceitar o nome social em sua
carteira funcional por simples requerimento do interessado, para aqueles casos
em que o profissional não tiver uma aparência condizente com seu sexo. Isso sem
contar as outras diversidades, tais como do negro, da mulher do deficiente, dos
animais, do meio ambiente, todas do interesse dessa instituição mágica (como
diria Lamachia, nosso Presidente Federal). A OAB para quem não sabe tem a
missão de ser uma das guardiãs da Constituição, e ao Advogado, a única
profissão mencionada expressamente na Constituição Federal é dado o importante
mister de ser um dos Administradores da Justiça (Art. 133). Sentimo-nos
extremamente orgulhosos quando nosso cliente consegue seu direito, porque muitas
vezes é aquele direito que vai ser transmitido para a sociedade. Ah! Quanto ao
protesto legitimo e puro do cidadão; registro que nosso método de trabalho é o
científico, assim até agora nenhum requerimento foi protocolado em nossa secretaria
com razões ou exposições, porém, a meu pedido, solicitei que a rua fosse
fotografada de hora em hora e também de forma alternada em dias alternados, e, a
frente do estabelecimento em questão está sempre livre, de modo que o exagero é
oriundo talvez de inconformismo ou falta de visão coletiva, mas; uma postagem
em especial chamou-me a atenção por ter perguntado se o processo é digital por
qual razão o advogado tem que ir ao Fórum? O que responder? Imagino que esse
comentarista nunca lá adentrou, pois, existem aproximadamente 8.000 processos
físicos por vara, que os serventuários muitas vezes ficam entrincheirados atrás
de suas pilhas, que existem audiências, perícias, etc. e, que temos um corpo de
juízes trabalhando a todo vapor, mas não é fácil dar conta da demanda. O debate
é válido, mas que se faça com conhecimento de causa e de modo científico! Por
fim agradecemos a sensibilidade da Secretário Municipal de Assuntos Viários e
ao Prefeito Municipal, afinal também existem advogados idosos, advogadas
grávidas, advogados deficientes. Aos colegas digo que é uma honra representá-los
e se sintam orgulhosos desta profissão.
Helder
Antonio Souza de Cursi
Presidente
da OAB Dracena
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