A doença é uma experiência de sofrimento, limitações, dores, incertezas e mudanças na rotina. No entanto, o adoecimento também pode trazer vantagens indiretas para o paciente. Isso acontece quando a pessoa adoecida passa a receber mais atenção, carinho, apoio financeiro ou afastamento das responsabilidades. Essa acaba sendo uma forma de comunicar necessidades que, antes, não encontravam espaço para ser expressas.
Esses benefícios
não significam que a doença seja fingida, mas podem dificultar a recuperação.
Afinal, existe o receio — ainda que inconsciente — de perder esse acolhimento
ao se restabelecer. A melhora significa perder parte da atenção recebida,
retomar responsabilidades ou enfrentar situações difíceis que haviam sido
temporariamente suspensas.
Por isso, alguns
pacientes apresentam uma resistência inconsciente ao processo de reabilitação.
Ao adoecer, o cérebro pode associar o estado de enfermidade ao recebimento do
afeto que antes faltava. Uma pessoa que vive sob intensa pressão profissional e
familiar, por exemplo, pode encontrar na licença médica a única pausa que
jamais se permitiu fazer. Da mesma forma, alguém que enfrenta dificuldades de
relacionamento pode, durante a doença, experimentar uma aproximação dos
familiares que antes parecia impossível.
O caminho mais eficaz é compreender quais necessidades emocionais estão sendo atendidas pela doença e buscar formas mais saudáveis de satisfazê-las. Para isso, também é fundamental que a família encontre um equilíbrio entre oferecer apoio e estimular a autonomia.
Cuidar não significa reforçar a dependência. Incentivar pequenas conquistas, valorizar a capacidade da pessoa e celebrar cada passo em direção à recuperação contribuem para um processo terapêutico muito mais saudável.
Muitas vezes, por trás do sintoma, existe alguém pedindo ajuda, proteção, pertencimento ou descanso. Quando essas necessidades são reconhecidas e acolhidas de forma adequada, abre-se espaço para uma cura real e completa.
A verdadeira cura
acontece quando o paciente deixa de precisar da doença para receber aquilo que,
como ser humano, sempre mereceu: cuidado, respeito, escuta e afeto.
Cidinha Pascoaloto
- Psicóloga, CRP 06/158174. Presencial e online
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